Os holandeses podem hoje parecer civilizados, mas qualquer pessoa com algum conhecimento da história europeia sabe que nem sempre foi assim.
A Europa, incluindo a Holanda, não era um lugar fácil para se viver naquela época. O continente foi devastado por guerras, conflitos e assassinatos – uma completa confusão geopolítica.
Uma história do passado que melhor exemplifica isto é a trágica história de Johan de Witt, um capítulo especialmente sombrio da história holandesa.
Contexto histórico
Em 1672, a Holanda (na época conhecida como República Holandesa) esteve envolvida em uma guerra com a Inglaterra, a França e as duas cidades alemãs de Colônia e Münster.
Este ano entraria nos livros de história holandeses como o Rampjaar (Ano do Desastre), que marcou o fim da Era de Ouro Holandesa.
O Rampjaar ainda tem seu próprio slogan: “het volk was redeloos, de regering radeloos, en het land reddeloos.” Traduzido para o inglês, significa “o povo era irracional, o governo indefeso e o país além da salvação”.
Que época estressante para estar vivo. Ou, pior ainda, que vida estressante liderar um país.
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Johan de Witt era o (azarado) primeiro-ministro da época. Durante quase 20 anos, ele foi um dos únicos líderes não-reais em toda a Europa.
Isto desagradou muitos cidadãos holandeses que não gostavam dele e prefeririam ver o famoso Guilherme III da Casa de Orange-Nassau tomar posse. A Casa de Orange era a coisa mais próxima que a República tinha de uma família real na época.

Johan de Witt, por outro lado, representava os interesses republicanos ao lado de uma classe mercantil forte e rica.
Os De Witt governam a cidade de Dordrecht desde os tempos medievais, e a poderosa família ocupa altos cargos políticos em toda a Holanda.
Por exemplo, o irmão de Johan, Cornelis de Witt, era um oficial da marinha de alta patente e governador de Dordrecht.
A queda (violenta) de Johan de Witt
Em 21 de junho, em Rampjaar, um assassino esfaqueou De Witt, ferindo-o gravemente. De Witt renunciou então à sua liderança de 20 anos, mas as pessoas que conspiraram contra ele ainda não estavam satisfeitas.
Ao mesmo tempo, seu irmão Cornelis foi preso por traição, levado para uma prisão em Haia (hoje um museu — falaremos mais sobre isso depois) e torturado.
Como era costume na época, a tortura era apenas uma parte normal da prisão, usada como meio de forçar a confissão dos condenados.
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Claro, não importava se a confissão era verdadeira ou não — contanto que a pessoa confessasse o que quer que fosse, a tortura era considerada justificada.
Sendo um rapaz forte e não pretendendo conspirar contra o próprio irmão, Cornelis recusou-se a confessar. Ele foi condenado, no entanto, ao exílio.
Johan foi à prisão para ajudar o irmão a se preparar para a viagem. Ao partirem, ambos foram capturados por uma multidão militante, que atirou em ambos e depois os deixou nas mãos da multidão.
As multidões fizeram o que as multidões fazem de melhor: perderam todo o sentido ou sanidade. Segundo alguns relatos, os dois irmãos foram despidos, mutilados e tiveram seus fígados removidos e comidos.
@dutchreview Lembra daquela vez que os holandeses comeram o primeiro-ministro? #fyp #dutchreview #dutchhistory #dutchfunfacts #crazydutchfacts #netherlands #nederland #holland ♬ som original – Viver na Holanda
É importante notar que as multidões sempre gostaram de escolher uma lembrança na época dos linchamentos públicos. Talvez arrancar alguns dentes e colocá-los nos bolsos, ou talvez um ou dois dedos.
Caramba, por que não ser uma lenda e pegar o braço inteiro? Claro, comer fígado parece um pouco intenso, mas ei, a guerra faz as pessoas fazerem coisas desesperadas.
Não se sabe se Guilherme III de Orange esteve envolvido no assassinato. Seja qual for o caso, não foi ele quem foi comido pela multidão, então deve ter sido uma situação ganha-ganha para ele.

Hoje em dia, visitantes curiosos podem visitar a prisão onde Cornélio foi torturado. Chama-se Gevangenpoort e agora é um museu em Haia. Parte dela é dedicada aos seus gloriosos dias de prisão e parte funciona como uma galeria de arte reformada.
Situa-se mesmo ao lado da praça onde os dois irmãos foram mortos, e aí é possível encontrar até uma estátua comemorativa de Johan de Witt, num estado mais digno do que nos seus momentos finais.
Você já ouviu falar deste capítulo sombrio da história holandesa antes? Deixe-nos saber nos comentários!
Imagem de destaque: Museu Histórico de Haia/Wikimedia Commons/Domínio público